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O Blog do Futebol em Portugal

Futebol / “Envelope” – sentença justa, mas…

“Envelope” – sentença justa, mas…

Tinha prometido na minha primeira crónica escrever aqui sobre o “caso do envelope”. Apesar da actualidade aconselhar a que se diga mal do treinador do Benfica, “assim-assim” do Sporting e se ponha o Futebol Clube do Porto no topo (bem merece), não vou fugir ao tema. O problema é perceber-se, afinal, o que sei eu sobre isso. Comecei por escrever na minha primeira crónica neste blog que até sei umas coisas sobre o processo Apito Dourado e que fui assessor de imprensa de Valentim Loureiro. Recordo-o para que não restem dúvidas acerca do enquadramento em que escrevo.
Devo também dizer que, acerca do “caso do envelope” não tenho nenhuma informação privilegiada. Pelo contrário. Tudo o que sei é pelos jornais. E na verdade o que penso sobre esse assunto é precisamente isso: trata-se de um processo que tem muito mais a ver com jornais e com um certo folclore futebolístico do que propriamente com Justiça. Eu sei que custa vermos a Justiça sistematicamente recusar-se a condenar aqueles que, à partida, julgamos ou gostaríamos que fossem culpados. Mas não é assim que a democracia funciona, por muito que nos custe. A Justiça, para condenar, tem que provar sem margem para dúvida a culpa do arguido (e se calhar está mesmo bem assim). O que sei, portanto, sobre este assunto do “envelope” e que foi provado e confessado em tribunal é que um árbitro esteve em casa do senhor Pinto da Costa em vésperas de um jogo do seu clube. A partir daí, há uma senhora que diz umas coisas vagas, contraditórias e cuja credibilidade, sejamos honestos, não é nenhuma. Não pelo passado profissional ou pelo estilo da senhora que nem conheço pessoalmente.
Estou-me nas tintas para a condição em que se tornou íntima de Pinto da Costa ou como ganhava a vida. Sinceramente, não tenho nada a ver com isso. Acho até, que ninguém tem. Ir por aí, é a pior forma de tratar o assunto. O depoimento de Carolina Salgado não é credível perante um tribunal como não seria o meu depoimento caso me visse envolvido em diversos litígios com uma ex-companheira. Tão simples quanto isso. Portanto, para mim, e para qualquer advogado medianamente sério, o caso estaria perdido ou quase perdido, se não sustentado por outro tipo de prova que, pelos vistos, não existia. A sentença não me espantou, portanto, e eu, que até sou benfiquista e que não gosto do senhor Pinto da Costa nem pintado de vermelho, parece-me que foi a sentença justa e mesmo a única sentença possível. Não falemos então sobre isso e demos ao presidente do FC Porto e ao clube o direito à sua inocência perante a Justiça. Se o não fizermos neste caso, estaremos a envenenar qualquer outro tipo de argumentação, pelo menos, num Estado de Direito.
O problema, contudo, não se esgota aqui nem deveria ficar pela coisa judicial. Tenho-o dito repetidamente em relação a dirigentes desportivos mas também em relação a titulares de cargos políticos: ser inocente não basta quando se ocupa certos lugares. Se entendo que à luz da Justiça o Primeiro-Ministro é inocente até prova em contrário em todos os recentes casos em que a imprensa o envolve, não consigo entender como é que os portugueses continuam a suportar que não dê explicações ao País sobre actos que terá ou não tomado (mas que lhe atribuem), bem como sobre rendimentos que se “esqueceu” de revelar ao Tribunal Constitucional, mas que poderia revelar agora, etc, etc. O facto de não haver provas contra si ou sequer indícios de práticas criminais dá-lhe todo o direito de sentir-se e a ser considerado inocente como cidadão perante a Justiça, mas não o deveria inibir de explicar ao país o que andou a fazer, como ministro e Primeiro-Ministro. A política acabará por penalizá-lo por isso (veremos).
O mesmo, penso eu, se deveria aplicar aos dirigentes desportivos. O facto de Pinto da Costa ter sido absolvido perante a Justiça no “caso do envelope” (e bem, penso eu), não deveria levar o futebol (Liga, Federação, Governo) a assobiar para o lado e a fingir que não existe um facto provado e grave do ponto de vista da credibilidade: um árbitro esteve em casa de um dirigente desportivo nas vésperas de um jogo! Parece, contudo, que nada existe na disciplina desportiva que possa impedir, amanhã, outro ou o mesmo árbitro ir a casa do mesmo ou de outro dirigente desportivo nas vésperas de um jogo. A visita pode até não ter nenhum significado para o resultado do jogo e para a verdade desportiva, mas não é esse o problema. O problema é que, tal como o tribunal desconfiou de Carolina Salgado, nós passaremos, também, a desconfiar de todo o futebol. E no final essa é a suspeição que corrói o futebol até aos ossos. A ida do árbitro a casa do dirigente não é crime, mas a passividade de quem dirige o futebol perante esse facto esvazia estádios, desvaloriza direitos televisivos, empobrece o futebol. Não fazer nada contra esse tipo de prática, ao que parece vulgar, é, isso sim, o maior dos crimes: um crime de lesa futebol, não punível nos tribunais, mas que um dia a história condenará.

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