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O Blog do Futebol em Portugal

Futebol / TREINADOR, ser ou não ser? – o outro olhar da Análise Táctica

TREINADOR, ser ou não ser? – o outro olhar da Análise Táctica

Ontem, como em todas as festas de crianças de 12 anos, estava um grupo de rapazes a jogar futebol: inventaram as balizas, inventaram o campo, inventaram as equipas, pegaram numa bola e começaram a jogar… eu estava de costas a conversar, mas a «sonoridade especial» que vinha daquele jogo começou a prender a minha atenção porque parecia que a BOLA estava a ser estimada: o modo como os jogadores a tocavam transmitia um som agradável e incrivelmente fluído. Pedi desculpa a quem estava a conversar comigo e fui sentar-me a observar aquela sonoridade. O que se estava a passar era tão simples como isto: os miúdos apoiavam-se uns nos outros de acordo com uma lógica pequena mas complexa (jogar em passe, só) e, por isso, o seguimento que davam à bola de cada vez que a sentiam (a atacar e a defender) era COLECTIVO. Ou seja, havia ali uma sintonização partilhada por TODOS que se traduzia na CAPACIDADE de ANTECIPAR a intenção do(s) outro(s) e era por isso que eu ouvia “seguimento” em vez de ouvir “confusão”. Ora esta capacidade assegura a possibilidade de viver o jogo de acordo com a natureza do Jogo – ali os miúdos não estavam simplesmente a agir nem a reagir, estavam a INTERAGIR!… e isso, num processo completamente «selvagem» (sem treinador mas com conteúdos autonomamente criados e assumidos por todos), é “ispectacular”. Digo processo porque, jogando juntos com regularidade (disseram-me que jogam juntos muitas vezes – está explicada a capacidade surpreendente para antecipar: estão entranhados uns nos outros), os miúdos construíram, naturalmente, conceitos (por exemplo jogar em passe) que, por terem existência, transformam os «jogos que jogam juntos» muitas vezes em momentos de aprender a jogar melhor. É precisamente o formato desta (in)existência (lado conceptual) que define a qualidade de um processo – de que interessa o “como fazer” (operacionalizar) se o “o que fazer” (sistematizar) não lhe dá suporte vital?…

Antes de apreciar o trabalho de um treinador é preciso saber se ele é Treinador. E só é Treinador quem procura, em todos os momentos do processo, contribuir para a construção de uma equipa (a sua) com capacidade para expressar um jogar, de preferência de qualidade. O Pep Guardiola é, neste momento, o Treinador da melhor equipa do mundo porque o “Jogar à Barça” é uma existência (mundialmente) real que é consequência de um processo que vive SOBRE conceitos ricos – recuperar a bola o mais rápido possível para poder ter a bola o maior tempo possível para marcar golo – que crescem de acordo com a sua interpretação da expressividade momentânea daquilo que é emergente.

O episódio que problematizei prova que a espontaneidade de miúdos inteligentes os leva a respeitar, instintivamente, a natureza do futebol. Por isso, ao treinador cabe o dever de enriquecer esse instinto com «INTENÇÕES com sentido»: “Jogar em passe” é uma intenção colectiva demasiado aberta (embora suficiente para criar interacção) à espera de um acrescento que favoreça (ainda mais) a qualidade da antecipação. Assim, por exemplo, “jogar em passe pelo lado mais vazio” mantém abertura (liberdade para decidir) à intenção inicial e acrescenta-lhe o CRITÉRIO que lhe dá sentido.

Ser Treinador é ser capaz de acrescentar CRITÉRIO (pelo modo como o operacionaliza) e ser Treinador de qualidade é ser líder de uma equipa que ganha PORQUE “joga à…….”   !!

E este é que é o “outro olhar” da “Análise Táctica”: aprofundar as consequências do confronto entre “ jogar à ……..” e “jogar à …..”.

Sendo assim, até ao próximo «JOGO entre jogares»…

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