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O Blog do Futebol em Portugal

Futebol / «Cada batalha ganha é uma das razões pelo sucesso do nosso clube»

«Cada batalha ganha é uma das razões pelo sucesso do nosso clube»

Texto: João Sá - Imagens: Hugo Henriques

O Futebol Portugal anda sempre à descoberta do quão bem o nosso país faz bem ao desporto que move milhões. Hoje vamos conhecer  um clube e escola de formação em rápida ascensão na Finlândia, composto por um staff essencialmente português.

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O Peimari United  foi criado na junção de 2 pequenas localidades em 2010 num escalão juvenil com o intuito de proporcionar aos jovens condições de prática do Futebol. Em 2011, após um estágio em Portugal, os métodos de trabalho e qualidade de treino levaram o Presidente a recrutar um Treinador para assumir o papel de Head Coach e desenvolver todo o clube. Assim em Abril de 2012, Diogo Nobre chega ao clube e competindo pela primeira vez com uma equipa ainda júnior ficou a um passo da promoção (identificando as grandes lacunas do clube – falta de trabalho de formação, sem soluções na posição específica de GR, ritmo e hábitos de treino rudimentares).

Desde então, foi prioridade incluir clube mais qualidade no processo de treino tendo chegado Hugo Henriques (o nosso entrevistado de hoje no Futebol Portugal) em 2013 e André Miranda em 2014 depois de um estágio nos escalões de formação do Sporting Clube de Portugal, formando uma equipa técnica com Diogo Nobre de formandos da Escola Superior de Desporto de Rio Maior. Além do trabalho sénior, repartiram-se as equipas de formação e tomaram conta de todos os projectos desenvolvimento do clube. Ainda há a juntar 3 atletas que vieram de Portugal para adicionar qualidade ao plantel. Ao mesmo tempo estes atletas trabalham em regime de part-time com o Peimari: Gerson Lima de 21 anos (guarda-redes e treinador guarda-redes na formação), e os recentes internacionais por São-Tomé e Príncipe – Adimar Neves, defesa 26 anos e connosco desde 2013, e Leonido Soares “Ju” avançado desde 2015.

 

Antes que tudo obrigado pela colaboração em nome da Futebol Portugal.

Obrigado nós pela oportunidade de fazermos chegar à nossa comunidade um pouco do nosso trabalho.

Em 4 anos, subiu nas 4 épocas e está a 2 subidas da divisão principal. Qual é o segredo para o sucesso?

O “segredo” tem sido a organização do trabalho com uma forte capacidade de adaptação e transformação da realidade, criando a nós próprios condições para desenvolver modelo de jogo, elevar os métodos e hábitos de treino e criar no seio do grupo uma mentalidade vencedora e de superação diária. O plantel sendo ele muito jovem (média actual de 21 anos), teve um processo de maturação de ano para ano para que as 4 subidas se tornassem possíveis. Aliás, até para os mais crentes, a subida este ano não passava de uma miragem. As reformulações dos campeonatos profissionais (redução de equipas na Ykkonen/Kakkonen) trouxe a este campeonato 3 clubes históricos tendo sido a 3ª divisão mais competitiva desdo há muitos anos atrás. Na nossa preparação, tínhamos noção da necessidade de um plantel equilibrado, completo, com um elevado número de jovens e de uma clara identificação dos pontos fortes explorando os nossos adversários, para que semana a semana realizemos uma preparação ao detalhe mantendo-nos nos lugares cimeiros até aos momentos de decisão onde tivemos de ser os mais competentes para confirmar o 1º lugar.

O staff luso do Peimari United nos prémios Grassroots 2015 (que premeiam o desenvolvimento do futebol nacional). À esquerda Diogo Nobre (head coach do clube, treinador principal seniores, Jun.A/Jun.B), ao centro Hugo Henriques (adjunto, treinador Jun.C/E11-E10 e responsável escolas de iniciação) e à direita André Miranda (adjunto, treinador Jun D13/D12/F9)

O staff luso do Peimari United nos prémios Grassroots 2015 (que premeiam o desenvolvimento do futebol nacional). À esquerda Diogo Nobre (head coach do clube, treinador principal seniores, Jun.A/Jun.B), ao centro Hugo Henriques (adjunto, treinador Jun.C/E11-E10 e responsável escolas de iniciação) e à direita André Miranda (adjunto, treinador Jun D13/D12/F9)

Que tipo de dificuldades encontra na Finlândia que em Portugal não encontraria?

A falta de cultura do jogo e paixão ao nível que se vive em Portugal é um dos pontos a citar. A falta de organização e até de critério em níveis até semi-profissionais ou até profissionais é uma realidade assustadora quando comparado ao contexto Português. Olhado por muitos como um hobby, outra das grandes dificuldades é fidelizar/comprometer os atletas com os objectivos e levar-los a ambicionar algo mais (uma batalha ganha diria que é uma das razões pelo sucesso do nosso clube).

A resistência de grande parte da sociedade ao que é novo. Até atingirmos o ponto actual de aceitação local/regional e ver o nosso trabalho reconhecido foi um trabalho longo e de consciencialização que o futebol é muito mais que um simples jogo, mas um elemento capaz de transformar toda a sociedade.

Diferenças entre o futebol finlandês e o português, visto que aí jogam no sintético…

A época desportiva é a maior diferença já que se disputa em ano civil de Março a Outubro (Abril – Setembro nos escalões amadores). Por surpreendente que pareça, nem todos os campos são sintécticos e existem até um elevado número de relvados naturais (apesar de só utilizados em metade do ano). O natural é existirem nos grande complexos 1/2 campos relvados naturais + 3-4 pisos sintécticos ou estádios/campos municipais sendo repartidos pelos diferentes clubes da região. Infraestruturas é até dos pontos mais desenvolvidos do país no que ao Futebol diz respeito. Em relação ao “jogo jogado”, típico do futebol nórdico o jogo diria tem uma elevada vertente física.

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O futebol não é o desporto rei da Finlândia. Apesar disso, acha que o futebol tem crescido na Finlândia e que há cada vez mais jovens interessados em jogar futebol?

Se esta análise for feita baseada apenas comunidade onde me encontro é um sim. Cada vez mais crianças tem o futebol como hobby número 1 e um gosto maior pela modalidade. No entanto, a nível nacional não diria que o futebol tenha sofrido ainda grandes alterações (projectos de identificação com o jogo ou falta de resultados de relevo são possivelmente causas deste não aumento).

Quais são as perspetivas do clube para o futuro quer a nível sénior e de formação?

O clube com este crescimento exponencial tem como perspectiva solidificar-se na região e posteriormente continuar a sua evolução. A nível sénior, entramos num novo desafio e sendo a primeira vez numa competição semi-profissional passa por estabilizar e preparar-nos da melhor forma para este novo passo.

Ao nível da formação durante estes 4 anos, de um processo inicial de 4 escalões passamos a contar com 9 equipas de competição (JuniorA, JuniorB, JuniorC, JuniorD13/D12, JuniorE11/E10, JuniorF9/F8 e escolas de iniciação), e um aumento exponencial de atletas para aprox.150. Actualmente 7 dos escalões competem na principal divisão distrital (inicialmente começaram no escalão mais baixo). Destaques nestes escalões os juniores B (liderados pelo Diogo Nobre) estão a um passo de qualificar para os regionais, os Juniores C (da minha responsabilidade) venceram respectivamente campeonato distrital sub-15 este ano e na época anterior o campeonato sub-14 tendo estado no apuramento do regional até à última fase, e os juniores D13 (André Miranda) terem vencido o 2ª escalão da competição na 1ªfase de época. Basicamente, todo o clube tem progredido de modo sustentável e os nossos resultados tem sido consequência de um trabalho global

Quais são as aspirações da Finlândia, enquanto país de futebol, a colocar equipas nas competições europeias no futuro?

Quanto à possibilidade da Finlândia apurar equipas para as competições europeias, eu penso que em relação à Liga Europa deveria acontecer de forma natural pois com alguma organização os clubes do topo teriam condições para o fazer! Pelo que temos observado não é um problema de qualidade individual ou de falta de estrutura mas sim de um processo de liderança e de uma falta de identidade das equipas. No que diz respeito à Liga dos Campeões e tendo o campeão Finlandês como única vaga enfrentar 3 fases e competir com países de maior desenvolvimento no Futebol, as aspirações de uma entrada na fase de grupos diria que são diminutas, mas um desafio deveras interessante.

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Acha que a sua equipa consegue surpreender todos e chegar à divisão principal sempre a subir?

Considerando o nosso trajecto há que salientar que até ao momento o que alcançamos tem sido algo único no país (e provavelmente até a nível europeu). Aquando da chegada do Diogo Nobre ao clube o desafio passava pela alcance de 3 subidas em 4 anos, pelo que ambicionar e superar objectivos é algo a que nos habituamos contudo neste meio há que “ter os pés assentes” e preparar cada novo passo de modo detalhado, assim vamos preparar a época desportiva sabendo que é um novo passo e que desse modo primeiro todo há um trabalho para solidificar a nossa equipa neste novo contexto!

Como está a moral da equipa para a época?

A moral de uma equipa habituada a ganhar é por si só elevada, mas para muitos atletas que nunca tinham ambicionado estar a este nível é algo de surpreendente. O capitão Samuli jovem nascido em 1995 tem sido um dos exemplos, encontrando-se a trabalhar de forma individualizada nos seus tempos livres, factores técnicos que detectamos como melhoria para alcançar altas performances.

Tem saudades de Portugal? Se sim, do que tem mais saudade? (Exemplo: do tempo ou de alguma comida,etc..)

Falar do clima é inevitável e claro que fica sempre algumas saudades do nosso “canto”, mas acima de tudo a parte social (afinidade, a facilidade com que desenvolvemos amizades, a alegria) do nosso povo é algo que não se encontra com facilidade nos países nórdicos. Felizmente e também nisso, a nossa pequena comunidade portuguesa aqui tem contagiado e sentimos bem recebidos por todos cá.

Hugo, muito obrigado!

Agradeço a oportunidade por contar um pouco da nossa história, e saudações a todos os leitores do Futebol Portugal.

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