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Futebol / A história de uns hammers com saudades de casa

A história de uns hammers com saudades de casa

10 de Maio de 2016, o dia que qualquer adepto do West Ham nunca irá esquecer. O dia que marca o fim de uma era. O dia do último jogo no Boleyn Ground (ou Upton Park), a centenária casa deste clube londrino. E que jogo! Talvez motivados pela solenidade da ocasião, a equipa treinada por Slaven Bilic encarnou o espírito de Bobby Moore ou Geoff Hurst, oferecendo aos seus fãs uma despedida condizente com o estatuto do seu “velhinho” estádio. O West Ham venceria (com uma excelente reviravolta, diga-se) o Manchester United por 3-2. O futuro e a modernidade estavam ao virar da esquina e a mudança para o Estádio Olímpico era, além de uma certeza, uma realidade.

O antigo Boleyn Ground

Fundado em 1895, com o nome The Thames Ironworks, como um clube recreativo para trabalhadores de um estaleiro naval homónimo, rapidamente o West Ham (designação que o clube viria a adotar no início do século XX) se tornou demasiado grande e profissional para estádios como o Hermit Road ou Memorial Ground em Canning Town. Um pouco a contragosto, o dono do clube, e da empresa que o fundara, Arnold Hills, aceitou abrir o clube a uma nova sociedade (daí a mudança de nome) e iniciar a procura de um lugar condizente com o estatuto que o West Ham entretanto adquirira.

O lugar escolhido foi o Upton Park, em East Ham (este de Londres). Situado no lugar de uma antiga escola católica, o novo estádio do West Ham adotou o nome de Boleyn Ground pois havia sido construído exatamente ao lado da Green Street House, conhecida como Boleyn Castle. Casa essa que se assemelhava a um castelo, que viria a servir de inspiração para o símbolo do West Ham, e na qual vivera Anne Boleyn, rainha de Inglaterra no século XVI.

Rapidamente o estádio e a zona envolvente se tornaram um local de culto para os hammers e objeto de uma mística própria. No ano de 1944, em plena Segunda Guerra Mundial, parte do estádio é destruída por uma bomba, o que obriga a uma reformulação do mesmo. Mais tarde, já durante a década de 90, e após legislação que obrigava os clubes a ter somente lugares sentados nos seus estádios, o recinto também sofreu alterações que viriam a ficar completas em 2001, com a construção de uma nova bancada, perfazendo um total de 35647 lugares.

Um local mítico

Muitos jogos e jogadores atestam essa aura que o mítico Boleyn Ground granjeava. 0 8-0 ao Sunderland em 1968, num jogo em que Geoff Hurst marca seis golos. A grande reviravolta na meia-final da Taça das Taças de 1976 frente ao Frankfurt. Os oito golos marcados ao Newcastle, em 1986. O empate a uma bola frente ao Manchester United que impediu os red devils de conquistar o título em 1995. O volley fabuloso de Paolo Di Canio em 2000 frente ao Wimbledon. Ou até mesmo o último jogo de sempre frente ao mesmo Manchester United (retratado acima). Tudo isto foram momentos que ajudaram a criar o mito de um estádio e de um clube por onde passaram jogadores como Geoff Hurst, Bobby Moore, Trevor Brooking, Billy Bonds, ou, mais recentemente, Di Canio, Ferdinand ou Tevez.

No entanto, nem só de artistas e de espetáculos se contruiu a mística em torno do West Ham. Os próprios fãs e a zona onde o clube jogava muito contribuíram para isso. Situado na já referida vertente este de Londres, mais especificamente na divisão administrativa de Newham, o Boleyn Ground foi um grande catalisador na construção da “cultura West Ham” neste bairro. Pubs, restaurantes, fanzines, ardinas, todo o tipo de negócios foi crescendo ao redor do estádio. E todos com uma conotação óbvia com o clube.

Havia uma atmosfera única em dias de jogo. Atmosfera essa que era transportada para o estádio, nomeadamente, para a bancada East Stand, com a famosa “Chicken Run” que, até à remodelação nos anos 80, era considerada uma das mais intimidantes em todo o Reino Unido. Nem mesmo os episódios tristes relacionados com o hooliganismo que, durou até início da década de 90, foram capazes de retirar beleza ao ambiente que se vivia neste estádio. Um momento marcante no início de cada jogo caseiro do West Ham acontece quando todo o estádio em uníssono canta a “I’m forever blowing Bubbles” soltando pequenas bolhinhas pelo ar.

Mudança para o Estádio Olímpico

Em 2006, o presidente do West Ham, Eggert Magnússen, já revelava planos de mudança para o futuro Estádio Olímpico de Londres, que acolheria os Jogos Olímpicos de 2012. Essa hipótese ficou no ar, mas seria já em 2010 que os novos donos do clube, David Gold e David Sullivan, apresentariam a proposta formal para este novo estádio passar a ser a casa do West Ham. Isto após de se ter colocado a hipótese de remodelar o Boleyn Ground, algo que não viria a suceder. A confirmação oficial da mudança surgiria em Março de 2013. O West Ham assegurou o arrendamento do estádio durante 99 anos, pagando £2,75 milhões por ano, e ficando os terrenos do antigo estádio disponíveis para a construção de blocos de apartamentos, a exemplo do que aconteceu com o Highbury Park do Arsenal. O Estádio Olímpico seria então remodelado, passando a contar com cerca de 60000 lugares.

Assim, de repente, todos os hammers se veem confrontados com uma data concreta para dizerem adeus ao Upton Park e mudarem-se para o Estádio Olímpico de Londres. Houve, naturalmente, reações de todo o tipo. Adeptos que, apesar da tristeza, compreendem que o Upton Park era pequeno demais para uma remodelação. Outros claramente magoados, sabendo que parte da mística deste clube estava ligada à atmosfera que se vivia na Green Street e que a ligação entre a “comunidade West Ham” se perderá no Olímpico. Contudo, no fim, todos tiveram que aceitar a decisão. No fundo, é o preço a pagar pela modernidade.

A nova época

A época 2015/2016, a última no Boleyn Ground, foi bastante bem conseguida pelo West Ham. Estiveram perto dos lugares de Champions, alcançando a sétima posição e apurando-se para a Liga Europa. Havia, desse modo, uma expectativa enorme em redor da nova temporada. Estádio novo, equipa reforçada com nomes como Calleri, Zaza, Ayew ou Arbeloa, que se juntavam a Payet, Carroll, Lanzini ou Antonio. Tudo isto mantendo um treinador que se havia adaptado perfeitamente ao clube, Slaven Bilic. Parecia ser a receita do sucesso.

No entanto, sucesso é tudo o que o West Ham não tem tido nesta temporada. Após terem estado de Agosto a Maio sem perder um único jogo no seu estádio (durante a época passada), este ano já somaram três derrotas em jogos do campeonato, às quais se pode acrescentar a incrível eliminação, com uma derrota no Olímpico, numa pré-eliminatória da Liga Europa, às mãos dos romenos do Astra Giurgiu. Mais, os hammers apenas têm dois triunfos em casa na Premier League. Vitórias essas que até foram alcançadas já perto do final das partidas. A somar a tudo isto, está a humilhante derrota sofrida frente ao Arsenal (5-1), na última jornada que disputaram na condição de visitados. Tudo bem que a equipa ainda se está a adaptar a uma nova realidade, mas é inegável que estes primeiros meses não têm sido nada famosos para um West Ham que se encontra a apenas um ponto da zona de despromoção, numa época em que ambicionavam voos bem mais altos.

E para agravar ainda mais a situação, os problemas com a organização dos adeptos no novo recinto. No primeiro jogo, frente ao Bournemouth, ocorreram incidentes entre adeptos do próprio West Ham devido ao facto de alguns estarem a assistir ao jogo de pé (prática comum em algumas zonas no antigo estádio) perturbando a visão a outros. O foco do incidente prendeu-se com o facto de grupos organizados de adeptos terem sido separados com a mudança para o novo estádio.

Há ainda muito a fazer no recinto para criar uma atmosfera adaptada a um jogo de futebol, e, ainda para mais, se falamos de Premier League, tão conhecida pelos ambientes fantásticos nos seus estádios. A gestão dos lugares nas bancadas (no Boleyn Ground, cada bancada tinha a sua própria segmentação em termos de adeptos) e a larga distância entre público e relvado, são alguns dos mais evidentes. Mas há também a questão da segurança, sem a qual, qualquer plano de remodelação pode fracassar à partida. E planos existem, nomeadamente a safe stand, proposta pelo próprio dono do clube David Gold.

Até lá, e até a equipa recuperar a força do passado e os adeptos passarem a ver o Olímpico como algo seu, o West Ham parece estar a viver uma difícil transição entre o passado e o futuro, entre a tradição e a modernidade, entre o Boleyn Ground e o Olímpico. É um clube com saudades de casa!

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