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Futebol / Liverpool FC: Um ano de Jürgen Klopp e a evolução de Adam Lallana

Liverpool FC: Um ano de Jürgen Klopp e a evolução de Adam Lallana

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Adam Lallana (sem camisa) e o Liverpool celebram a vitória dramática (5-4) sobre Norwich City

Com a chegada do mês de outubro, os adeptos do Liverpool FC celebraram dois aniversários notáveis. Primeiro, Jürgen Klopp cumpriu um ano como treinador do clube, e segundo – um acontecimento bem menos discutido – o centésimo jogo de médio atacante inglês Adam Lallana pelos Reds na vitoria sobre o West Bromwich Albion.

Para o carismático treinador alemão , deixar a sua marca no clube foi um processo que demorou bastante, mas, com o começo da nova temporada, o seu impacto no gigante futebolístico do noroeste inglês é cada vez mais notório. Essa transição do futebol do ex-treinador Brendan Rodgers, cuja visão de impor ‘morte pelo futebol’ nos adversários se tornou profundamente mais dinâmica – tão em termos da mentalidade da equipa como do modo de jogar – sob a liderança de Klopp, para o estilo novo, fica mais visível na forma do já mencionado Lallana.

Na verdade, ao contrario dos seus vizinhos europeus e latino-americanos historicamente mais proeminentes na história do desporto, que podem evocar figuras lendárias como Messi, Maradona, Cristiano Ronaldo, Pelé, Zidane, Bergkamp, Cruyff, Iniesta, Best ou Ronaldinho Gaúcho, o futebol inglês raramente produz jogadores da laia técnica alta que tem toda facilidade do mundo com a bola nos pés ou que, repentinamente, podem realizar um drible decisivo, mas suave e delicado. Embora não quisesse insinuar que Adam Lallana pertence a este nível de jogadores todo-poderosos – isso não era minha intenção – se olharia sua técnica imaculada, sua habilidade de chutar com as duas pernas e sua compostura quando está com possessão da bola, ficaria extremamente claro que tem qualidades excecionais para um jogador inglês de hoje em dia.

Mas dito isto, se ele tem todo esse talento, porque ainda não estrelou a nível mundial? A verdade é que, apesar de ser um jogador efervescente, o jogo dele é ainda mais frustrante. Com muita frequência enganava jornalistas, adeptos e treinadores porque ofereceu tanto potencialidade no campo, mas havia uma grande carência de produto final; de golos e assistências no seu jogo. Mesmo assim, depois de jogar com o Southampton FC em League One e The Championship, chegou na Premier League em 2012 e começou a brilhar. Mostrou todas essas qualidades técnicas ao mundo na temporada de 2013/14 e era louvado pelo país inteiro como um dos novos talentos maiores da Inglaterra. Recebeu nominações para vários prémios da Premier League e uma convocação à seleção inglesa para o Campeonato do Mundo ao seu fim, então, quando chegou a Merseyside por um preço enorme ­– por volta de £25 milhões – e com o peso de grandes expectativas.

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Como era bem provável, a primeira temporada de Lallana em Liverpool foi cheia de inconsistência e, a pesar de mostrar momentos da sua qualidade, não conseguiu justificar aquele preço de transferência robusto. Fez bastantes jogos esquecíveis, não se estabeleceu como titular na equipa de Rodgers, e os adeptos lamentaram mais um jogador inglês excessivamente caro.  Contudo, a demissão de Rodgers e a chegada do Klopp em outubro do ano passado deu um novo impulso ao clube, mas especificamente ao jogo do meia-atacante enigmático. A partir de então, sob a liderança do Klopp, Lallana ligeiramente começou a tornar-se uma das figuras mais fulcrais do clube que dispõe dum dos ataques mais poderosos da Premier League.

O quê mudou? Por quê é que o Lallana está chegando ao seu nível máximo agora, com 28 anos de idade? Por quê é que, finalmente, o Lallana está começando a realizar um produto final de golos e assistências no jogo dele? Primeiro, a nova tática principal, implementada pelo Klopp ao inicio da temporada, uma espécie de 4-3-3 dinâmica na qual o atacante brasileiro Roberto Firmino desempenha o papel de Falso 9, em vez de um numero 9 tradicional (o inconsistente Daniel Sturridge), liberou totalmente a potencia atacante do clube para realizar um estilo de jogo cheia de intensidade, tanto em ataque como em defesa. Porém, para mim, o que é mais interessante nessa formação é o papel de Lallana. Embora, em teoria, jogue como parte dos três do meio-campo no 4-3-3, Lallana tem papel abundantemente mais livre do que ou Jordan Henderson ou Georginio Wijnaldum/Emre Can. Em defesa, tem a liberdade de sair para abafar ataques dos adversários com os outros atacantes do Liverpool para formar uma espécie de 4-2-3-1. Enquanto em ataque, ainda tem essa liberdade de sair do meio-campo e para se meter no movimento da linha de frente.

Então, nesse modelo, o quarteto avançado de Lallana, Firmino, Phillipe Coutinho e o sensacional, rápido meia-extrema direita senegalês, Sadio Mané, tem a possibilidade de jogar com liberdade, de trocar posições e atacar com uma imprevisibilidade e fluidez que, às vezes, fica impossível defender. Como consequência, a fundação da equipa baseia-se na energia desses quatro, porque a intensidade que Klopp exige dos seus jogadores em todos aspetos do jogo, só é possível graças ao seu ritmo de jogo extraordinária. E com este caos muito bem organizado na frente, os outros titulares – Henderson, Wijnaldum/Can, Clyne, Lovren, Matip e Milner – podem construir ataques de fundo ao mesmo tempo a que oferecem uma base defensiva estável.

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Lallana marca o golo decisivo contra Leicester City em setembro 2016

Além disso, destacou-se a importância de Lallana em particular, no empate de 0-0 contra Manchester United, um jogo que começou no banco por causa duma lesão. Depois de uma hora de futebol lento e chato, aquele entrou no jogo por Sturridge, a equipa voltou à formação de 4-3-3, e a complexão dele mudou inteiramente. De repente Liverpool começou a jogar com mais liberdade e movimento em ataque. Criou bastantes oportunidades e seguramente teria ganhado se não fosse por duas paradas incríveis de David de Gea.

A segunda resposta às perguntas que eu fiz anteriormente va além de qualquer analise tática. Na verdade, é possível que a relação pessoal forte que existe entre Klopp e os seus jogadores seja o fator mais importante na virada das fortunas do Liverpool. Ele os entende, e sabe as maneiras de os galvanizar. Aquele famoso abraço comemorativo entre o Lallana e o Klopp (e o resto da equipa) – no qual os óculos do treinador foram quebrados – depois do gol decisivo no ultimo minuto duma vitória de 5 – 4 contra Norwich City em janeiro é um bom resumo da união que tem.

Com certeza Klopp já mudou a cultura dentro do clube, e os seus jogadores estão começando a adquirir as qualidades pessoais fortes dele. E como Klopp não teme nenhum desafio, o Liverpool dele é tenaz e está começando a não ter medo de ninguém.

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