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O Blog do Futebol em Portugal

Futebol / O Colectivo como base do Jogar

O Colectivo como base do Jogar

O COLECTIVO COMO BASE DO JOGAR

Os treinadores passam por inúmeras dificuldades para formarem os seus plantéis. Existem inúmeras condicionantes, elementos internos, externos que complicam as nossas pretensões na hora de escolher este ou aquele lateral, este ou aquele avançado. E isto torna-se um momento fulcral de toda a época desportiva na medida em que estes jogadores que formam os nossos plantéis serão os actores de uma filosofia de jogo que queremos implementar numa equipa dentro de um sentido colectivo.

E é neste ponto que começam os primeiros problemas, as primeiras questões, o maior número que interrogações e dúvidas a que estamos sujeitos. Mais que o sistema táctico, os jogadores têm de ter um conjunto de princípios de jogo inabaláveis e que sustentem o seu treino e posteriormente o seu jogar. É de uma importância extrema que o trabalho do treinador incida desde o primeiro dia numa “cultura” de jogo, numa forma de estar no futebol jogado que não se altere em função de um adversário, mas que seja uma marca de identidade dos jogadores em particular e da equipa no geral. É óbvio que cada jogo tem características únicas, e estrategicamente e mesmo posicionalmente existam alterações que nos resguarde dos pontos fortes do adversário e ao mesmo tempo nos possibilite explorar pontos fracos do mesmo, contudo, a ideia chave das dinâmicas colectivas, os grandes princípios de jogo não podem mudar. E fundamentalmente por uma razão. Treinar é sistematizar o jogar. E sem repetir não se sistematiza. Logo, se for alterando princípios base a equipa nunca encontrará uma rotina de jogo, nunca será fiel a uma ideia, nunca terá qualidade contínua.

Nós temos a nossa forma de trabalhar, isso não muda. Mas o primeiro passo é escolher o nosso modelo de jogo, a nossa forma de jogar, dotar este conjunto de jogadores de uma filosofia, de uma criatividade e dinâmicas próprias e únicas baseadas numa predisposição táctica que os una em torno de um objectivo comum e de comportamentos absolutamente colectivos.

Tenho de reforçar este ponto relacionado com o colectivo. Para mim os jogadores não têm funções. Existe como é óbvio factores posicionais dentro de campo que obriga determinados atletas a desempenhar determinadas acções que os caracterizam de forma diferente de outros colegas. É óbvio que um central tem uma acção diferente de um ponta-de-lança e que para isso deve ser alvo de um trabalho específico e totalmente diferente do que referi anteriormente. Contudo, e é nisto que quero focar a minha ideia, mesmo diferentes os dois não podem ter uma ideia de jogo antagónica. Estão sempre inseridos num conjunto de 11 jogadores que estão sempre ligados entre sim, e que devem respeitar uma ideia de jogo comum.

Por exemplo, Piqué e Messi são em tudo diferentes, um é Defesa-Central, o outro um jogador de características ofensivas, um médio ofensivo de grande liberdade. O Espanhol joga a maior parte do tempo de frente para o desenrolar do jogo e opera no sector defensivo, o argentino está sujeito a outro tipo de marcações e oposições, joga muito tempo de costas para a baliza adversária e preenche fundamentalmente o meio-campo ofensivo. Um é alto e posicional, o outro é baixo e muito dinâmico. Resumindo e concluindo são o oposto em termos técnicos e físicos. Isto apenas significa que os jogadores são diferentes quando descontextualizados de uma ideia de jogo global. Mas dentro da realidade do jogo do Barcelona têm de ser jogadores disciplinados tacticamente ao ponto de terem os mesmos comportamentos obviamente em função do espaço que ocupam. Ou seja, se num determinado momento de jogo Messi ocupar por alguma razão a posição de Defesa-Central terá de ter um comportamento adequado a esse momento, assim Messi não será igual ao longo dos 90 minutos porque terá de respeitar comportamentos segundo os espaços que ocupa e principalmente o momento de jogo em que a equipa está num determinado momento. Logo o Messi que finta, que desequilibra, é condicionado por uma ideia de jogo global que lidera todo o comportamento individual. Assim cada jogador pode e deve acrescentar a sua qualidade individual a determinados momentos do jogo, mesmo com jogadas individuais, mas isso estará sempre assente numa ideia de jogo global onde os outros elementos estarão a funcionar em função desta acção.

O que pretendo reforçar é que não acredito que uma equipa jogue em função deste ou daquele jogador. O modelo de jogo e os grandes princípios do jogar de uma equipa devem estar perfeitamente interligados com os jogadores, isso é claro para mim. Mas é importante salientar que depois de um modelo de jogo ser escolhido não podemos adaptar individualmente as acções dos jogadores. Ou seja, não posso ter um central que só por ser bom no passe longo o faça a cada vez que recupere a bola e outro que saia curto. E porquê? Porque para o ataque rápido e para o ataque posicional são princípios de jogo diferentes que obrigam a equipa a funcionar de formas também elas diferentes com ou sem bola. A equipa deve ter um posicionamento específico e trabalhado em função das linhas orientadoras do seu jogar. Logo, se este momento do jogo não estiver globalizado e incutido no comportamento global da equipa e no seu funcionamento, e se não existir um princípio que direccione os comportamentos do individual então o colectivo nunca será equilibrado, jamais funcionará.

É importante que todos os jogadores estejam a ler, a pensar e a decidir igual a cada momento do jogo. É importante que independentemente da posição do jogador cada um saiba que segundo a bola e o espaço a equipa tem de ter colectivamente um dado comportamento. Isto não significa que pontualmente a equipa que joga posicional procure transições rápidas, quer dizer apenas que não podem ocorrer por opção, apenas em aproveitamento de situações pontuais.

Portanto, para mim o fundamental é as ideias e não os posicionamentos. O importante é a equipa saber como se movimenta nos espaços com e sem bola e não quem faz o quê. O futebol tem de ser colectivo em todos os momentos. É papel do treinador e da sua equipa técnica promover uma ligação íntima entre este jogar pretendido e os seus jogadores. São eles que irão dar vida a uma teoria táctica.

Dentro deste princípio de colectivo apenas uma forma de defender é possível. ZONA. Seja ela mais ou menos Pressionante. Disto dependem mil factores como a qualidade da nossa equipa e a sua inserção em determinada competição e suas características. A defesa à Zona é absolutamente colectiva, completamente global. Esta predisposição comportamental da equipa no momento defensivo consegue fechar espaços, cortar linhas de passe, realizar oposições firmes a todo e qualquer portador da bola porque a equipa se mantém organizada, compacta, próxima e acima de tudo, mais importante que tudo… unida. A referência é a bola e não o adversário, e o espaço onde a equipa a quer ganhar é assim mais um momento onde, mesmo sem bola, a equipa consegue comandar o jogo mais uma vez colectivamente. E para este momento de recuperação é possível estar associado um comportamento ou jogada de transição padronizada porque todos os jogadores sabem o posicionamento exacto de qualquer colega.

E é disto que falamos, de grupo, de colectivo, de um todo e nunca da soma das partes…

João Pedro -Treinador de Futebol

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