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Futebol / Obrigado, Estrela!

Obrigado, Estrela!

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O Sport Clube Estrela, mais conhecido como Estrela de Portalegre, regressou, esta temporada, ao ativo no que diz respeito à equipa sénior de futebol, acabando com uma ausência de 4 anos.

O regresso do Estrela de Portalegre representou, em primeiro lugar, o regresso da cidade e capital de Distrito ao futebol sénior que, outrora, nos idos anos 60, 70, 80 e 90 do século passado e ainda nos primeiros anos deste século, encheram de orgulho os muitos portalegrenses que faziam questão de “ir à bola”. E se os portalegrenses se enchiam de orgulho, também se enchiam de brio para acompanhar as suas equipas, enchendo o Estádio Municipal. Nessa altura, também, a rivalidade entre o Estrela de Portalegre e o Desportivo era digna de um Benfica – Sporting, enchendo as conversas dos cafés no dia-a-dia de uma capital de Distrito que, apesar de longe dos grandes centros, fervilhava quando se tratava de futebol.

Tudo se foi perdendo e, aquilo que relato no parágrafo anterior não é do meu tempo, apenas posso transmitir aquilo que já ouvi dizer. Foi-se perdendo o hábito de ir à bola, foi-se perdendo a rivalidade entre Desportivo e Estrela porque, simplesmente, as próprias equipas foram perdendo o hábito de… participar em competições seniores. Mais tarde apareceu ainda um outro clube, o Portus Alacer, que também não resistiu aos tempos difíceis e acabou por cessar atividade no que ao futebol sénior masculino diz respeito.

E, assim, a cidade de Portalegre deixou de ter futebol sénior. E se “enterrar” um projeto é fácil, fazer renascer ou ressuscitar o que quer que seja é sempre bem mais difícil. E se o é nos grandes centros, mais parece ser nos meios pequenos. Ainda assim, é de estranhar (ou talvez não), que o Distrital de Portalegre conseguisse ter mais de uma dezena de equipas, provenientes de vários concelhos do Distrito mas não ter qualquer equipa da capital de Distrito. O concelho do Crato, por exemplo, consegue, ainda atualmente, ter duas equipas no Distrital de Portalegre (Crato e Gáfete) sendo que, por exemplo, o Crato é o grande favorito à subida ao Campeonato Nacional de Seniores e o Gáfete ainda na época passada recebeu o Sporting de Braga para a Taça de Portugal, numa tarde que fez “renascer” o futebol em Portalegre (o jogo foi disputado no Municipal de Portalegre).

No ano passado a cidade de Portalegre foi surpreendida pelo anúncio do regresso do Estrela de Portalegre associado a um projeto, o De Elite Sports Group, projeto que traria consigo um conjunto de jogadores africanos (os nigerianos Sunday, Sele e Peter e os sul-africanos Robinho e Eto’o), alguns brasileiros (Igor, Matheus, Baradel e Carlos Augusto) e alguns portugueses oriundos de Portalegre e arredores (Joaquim Silva, Luís Matela, André Soutenho, Bruninho e Gonçalo Neves).

Como cidade pequena, Portalegre estranhou a presença de tantos estrangeiros. No entanto, a qualidade demonstrada por cada um deles (muitos deles com qualidades técnicas muito acima do que se tem visto nos Distritais e até pelos Nacionais onde as equipas de Portalegre têm jogado – arrisco a dizer que muitos destes jogadores têm lugar, pelo menos, na nossa Segunda Liga), a boa disposição, a simplicidade e a entrega dos jogadores, levou a uma crescente integração e empatia da cidade com a equipa.

Foi-se criando, aos poucos, o hábito de voltar ao Municipal de Portalegre, ao domingo à tarde, para ver a bola. Não tenho números sobre as entradas mas acredito que, por mais que uma vez, se terá ultrapassado as 200 a 300 pessoas. Número baixo quando comparado com o antigamente mas, se tivermos em conta que há jogos da Primeira Liga, em cidades com 100 vezes mais habitantes que Portalegre com cerca de 1000 a 2000 espectadores, é caso para dizer que se estava no bom caminho.

Eu próprio ganhei esse hábito. Não era nascido ainda na época gloriosa dos anos 60 e 70. Era muito novo na de 80. Não fui despertado nos anos 90 e não morava em Portalegre no início do século. Em 2014/2015, primeiro a reboque do Futebol Portugal, depois por prazer próprio de ir ver alguns jogadores bem interessantes, decidi ir ver os jogos ao Municipal. E se o fiz com gosto nas tardes frias e chuvosas de inverno, com mais gosto o faria nas tardes soalheiras que este mês de março vai prometendo. Fi-lo com a missão da escrita, fi-lo com o sentimento de pertença de quem, aproveitando a boleia de poder mostrar a minha terra, poder mostrar os rapazes que defendem as cores da minha terra, fi-lo porque, também eu, apesar de viver longe dos grandes centros, longe dos grandes jogos, também tenho o gosto de “ir à bola”. E o Estrela deu-me a possibilidade, tão simples mas, ao mesmo tempo, tão complicada, de poder voltar a dizer que “vou à bola”. E é, por este simples facto, que eu digo “obrigado, Estrela”.

Tudo o resto que não é futebol, neste caso, não me interessa pessoalmente. Não sei porque a nova direção acabou com a participação da equipa quando a mesma lutava por mais um título de campeão distrital. Neste momento, para além de me ver, novamente, impedido de ir à bola, apenas lamento duas coisas:

1) o que será feito de “meninos” como o mágico Sele Davou, o rápido Peter, o gigante Sunday, o bem disposto Matheus, o capitão Carlos Augusto, jogadores que, vindo de muito longe para abraçar este projeto, ficaram, agora, com as pernas cortadas, pelo menos no futuro imediato?

2) quando haverá, novamente, futebol sénior em Portalegre?

Seja qual for o rumo das coisas (o futuro encarregar-se-á de esclarecer as coisas), termino como comecei, com um agradecimento a todos os que me permitiram voltar a ver futebol sénior em Portalegre.

Obrigado, Estrela!

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