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O Blog do Futebol em Portugal

Futebol / Tretas…

Tretas…

Quem tiver a oportunidade de seguir um fim-de-semana de futebol pela televisão vê-se confrontado com as diferentes mentalidades dos mais variados campeonatos europeus. Infelizmente, só os campeonatos britânicos são exceção à triste regra que maior parte dos países já adotou.

Dizem-me que “já não jogos fáceis” porque as equipas á partida inferiores estão muito bem preparadas tática e tecnicamente. Concordo que assim o seja mas a maior dificuldade das grandes equipas em levar de vencidos os mais “pequenos” reside na banalização do anti-jogo, da mentira e, até, da leitura que os comentadores fazem de alguns expedientes lesivos á prática de futebol.

Parece-me óbvio que as equipas menos cotadas e de menor qualidade tenham interesse em que a bola esteja “morta” a maior parte do tempo regulamentar. Mesmo para equipas que se vêm a lutar pelos primeiros lugares 7 segundos a mais de jogo podem parecer uma eternidade quando lhes interessa. O mal está em todos nós, amantes de futebol, aceitar-mos certos comportamentos fraudulentos que, mesmo não colidindo diretamente com a verdade desportiva, vão de encontro áquilo que o adepto paga para ver.

Dividem-se argumentos a favor e contra a introdução de tecnologias vídeo no auxilio da equipa de arbitragem. Penso que ninguém se opunha à introdução de um maior bom-senso nas regras do jogo, sobretudo se isso se traduzisse em regras que dissuadissem o anti-jogo ao penalizar a equipa que o pratique em vez dos putativos cartões amarelos distribuídos, muito raramente, aos melhores intérpretes desta arte.

Acto I – Em jogo estão as equipas X e Y, sendo X melhor que Y

Um jogador da equipa Y decide, sem nada que o justifique, deitar-se no relvado

Os adeptos esperam agora uma de três coisas: (1) o arbitro pára o jogo, (2) uma      das equipas coloca a bola fora, ou pior que tudo,  (3) a bola continua na posse da equipa X que tenta continuar o jogo apesar dos protestos dos adversários.

ACTO II – A bola está “morta”. O árbitro dirige-se, sem motivo, para junto do jogador caído. À exceção dos jogos ingleses, o jogador não se vai levantar por ele próprio e o árbitro tem de chamar a equipa médica da equipa Y. Equipa médica essa que se depara com uma patologia gravíssima e requisita da maca para transportar o jogador para fora do terreno de jogo (com isto já passaram 7 ou 8 minutos desde que deixou de haver futebol…). Tratando-se do guarda-redes o Acto II prolonga-se para cima dos 10minutos. A cena continua, sem laivos de originalidade, e o jogador Y, qual Lázaro, recupera milagrosamente abdicando até da maca. Ensaia 3 ou 4 falsas mancadas para sair lentamente do campo e renasce para o jogo com um surpreendente sprint pela linha lateral, até alcançar a área que lhe permite reentrar na partida.

ACTO III – Tudo a postos para voltarmos ao futebol? Não! Nem por sombras…! Recordando o Acto I, podem vir a acontecer uma de 3 coisas dependendo da acção que tenha levado á interrupção do jogo. Se tiver sido a 1, o árbitro a parar o jogo, entramos na mais recente trapaça introduzida neste desporto – a bola ao solo – e o teatro atinge a sua faceta mais burlesca: o jogador da equipa Y, que beneficiou da paragem, “combina” entregar a bola ao seu adversário. O que acontece na prática é um “alivio” para junto da bandeirola de canto oposta seguida de uma pressão em todo o campo. A equipa Y pode não jogar um único segundo em inferioridade e ainda lhe é permitido colocar a bola no ponto mais distante da sua baliza.

Se tiver sido o caso (2) e a bola for reposta pela equipa Y o procedimento é o mesmo

Do (3) resulta normalmente um sururu enorme que, consoante a sensatez das equipas em disputa, pode transformar-se num episódio de insultos, agressões ou numa escalada de animosidade que normalmente acaba com uns amarelos ou vermelhos desnecessários. Tudo aquilo que se dispensa na medida em que acrescenta minutos ao já longo período de bola “morta”.

Todos os jogos que chegam equilibrados aos últimos minutos vêm-se invadidos por estas manobras desviantes do espírito do Futebol e até já começaram a ser descritas pelos mestres do comentário como demonstrações de “experiencia” por parte de quem as pratica, e reveladoras de grande “inteligência” pelos treinadores que as introduzem no seu plano de jogo. MAS QUE MERDA É ESTA??

O espetáculo que estes senhores comentam vive da paixão de milhões de adeptos que apaixonadamente acompanham os seus clubes. Mas a indústria do Futebol só prosperará enquanto houve capacidade de atrair mais pessoas, de todas as gerações, de todos os géneros. O caminho para onde o Futebol está a ser levado pelos treinadores, jogadores e árbitros está a roubar minutos ao jogo e a roubar, certamente, mais adeptos um pouco por todo o mundo. Se aquilo que se passa “atrás das cortinas” está longe de promover a qualidade e integridade dos jogos, as intenções de algumas equipas durante os mesmos só contribuem para a degradação do espetáculo e para afugentar qualquer ser Humano dotado de inteligência que queira acompanhar este desporto sem ser pelo simples facto de ver a sua equipa ganhar.

Não sei até quando iremos pactuar com esta palhaçada mas tenho alguma ideia do que poderia ser feito para legislar contra o anti-jogo:

I – Das interrupções para prestar assistência médica a um jogador; aceitando as premissas de que “os árbitros não são médicos” e “qualquer jogador está gravemente lesionado até prova em contrário” delibera-se que (1) o árbitro interrompa de imediato o jogo, apartir do momento em que perceba que o jogador não se vai levantar, e chame ao relvado o médico, bem como o corpo de bombeiros com a respetiva maca. (2) Se o jogador obtiver os valores máximo na escala de Glasgow é colocado na maca e transportado para fora do terreno de jogo. (3) O jogador terá de ser observado e assistido pelos médicos por um período nunca inferior a 3 minutos, de modo a que estes tenham a possibilidade de debelar convenientemente o motivo da lesão, para não correr o risco de o jogador precisar de nova assistência médica. (4) Depois de ser retirado o jogador de campo a bola é imediatamente reposta no circulo central pela equipa adversária e o 4º árbitro deverá adicionar 30segundos ao tempo de compensação.

I.I – Das interrupções para prestar assistência médica a um guarda-redes; uma vez que nenhuma equipa poderá disputar o jogo sem que tenha um guarda-redes fisicamente disponível na baliza delibera-se que (1) o árbitro interrompa de imediato o jogo, caso o guarda-redes de uma das equipas fique caído no relvado ou requisite assistência médica, e chame ao relvado o médico, o corpo de bombeiros com a respetiva maca e o guarda-redes suplente da equipa em causa. (2) Assim que o guarda-redes lesionado for retirado do terreno de jogo o seu suplente ocupará a baliza por um período nunca inferior a 3 minutos, enquanto o seu colega recebe assistência médica (3) A bola é reposta no circulo central pela equipa adversária (4) Após o período de assistência o primeiro guarda-redes poderá retomar o seu lugar, na primeira paragem do jogo, mas no caso de ter de ser novamente assistido a substituição é automática. (5) Caso a equipa já tenha esgotado as substituições um jogador de campo terá de abandonar o terreno de jogo.

Não ficariam de fora todos os lances de bola parada (cantos, pontapés de baliza, livres, lançamentos) que são aproveitados “gelar” o jogo quando o resultado é favorável:

II – Da execução de lances de bola parada; delibera-se que (1) todos os jogadores têm um período nunca superior a 20 segundos para começarem a executar qualquer lance de bola parada que beneficie a sua equipa (2) a equipa que atrasar a execução do lance perde o direito á posse de bola sempre que se tratar de um lançamento de linha lateral ou livre (muda a posse para o adversário),  o canto passa a pontapé de baliza para o adversário e vice-versa. (3) O 4º árbitro acrescentará 30 segundos ao tempo de compensação sempre que uma das infrações tiver lugar. (4) Excluem-se desta alínea a execução de grandes penalidades.

III – Das substituições; (1) Apartir do momento em que é levantada a placa o jogador substituído dispõe de um período nunca superior a 20 segundos para abandonar o terreno de jogo (2) Caso esse período seja ultrapassado o 4º árbitro só dará ordem de entrada ao substituto na próxima paragem de jogo em que a equipa do prevaricador tenha posse de bola.

Muitos minutos de Futebol serão “queimados”, pelos grandes e pelos pequenos, até que medidas deste género sejam postas em acção. Nem presumo serem estas as mais acertas já que são fruto de uma humilde reflexão de 10 ou 15 minutos..! Nada há de inovador ou de tecnológico nesta tentativa de dissuasão do anti-jogo. Que esperem os chips e os olhos-de-falcão. Os Antigos legaram-nos o relógio e é com a sua simples utilização que se deve desmantelar essa treta em que se transformou o fair-play.

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